A vaquinha

Viajando por uma região muito pobre, caminhavam lado a lado, um mestre e seu devotado discípulo. Ao entardecer chegaram a um lugar que além de aparentar extrema miséria, era quase desabitado. Encontraram um casebre onde viviam um casal e seus muitos filhos, todos com aspecto faminto e doentio. A escassez, acompanhada do desmazelo, era gritante por todos os lados da propriedade, mas como já era quase noite e foram muito bem recebidos, resolveram aceitar o convite para o pernoite.

O jantar servido foi apenas um pedaço de queijo e um copo de leite, testemunhando a miséria reinante naquela casinha. Conversando após a refeição, descobriram através do sitiante que a única fonte de rendas e de alimentos da família,  era uma vaquinha leiteira, chamada carinhosamente de “Mimosa”. Apesar do potencial agrícola da região, viviam como flagelados e apenas do leite da vaquinha.
Na manhã seguinte, reiniciando bem cedo a viagem, os dois avistaram a Mimosa, que pastava tranquilamente à beira de um precipício. Assim que a avistou o mestre ordenou a seu discípulo:
— Vá até lá e empurre a vaquinha no precipício.
— Mas mestre, ela é o único alimento desta gente… Se a matarmos, eles também morrerão de fome!
— Empurre-a! Repetiu o mestre.
Visivelmente contrariado o rapaz obedeceu ao mestre, empurrando para o precipício e para a morte, a pobre e indefesa vaquinha.

Passados alguns anos, o rapaz viajando sozinho pela mesma região se lembrou do acontecido e resolveu procurar aquela família para tentar, se ainda pudesse, remediar a situação terrível pela qual eles deveriam estar passando sem a Mimosa.

Ao chegar ao local, deparou com uma propriedade muito bonita, com antena parabólica, piscina, curral cheio de gado, granja com muitos porcos, plantações por toda parte e várias pessoas aparentando muita saúde. Com o coração palpitando disse pra si mesmo:

— Meu Deus! Aquela gente acabou tendo que se desfazer do sítio com a morte da vaquinha! Por que não desafiei meu mestre recusando atender a sua ordem? Como eu me arrependo…

Mas apesar de seu inferno secreto, aproximou-se da bela casa e questionou sobre a família que ali vivia há alguns anos. Ao responderem que sempre viveram naquele lugar, aos poucos o incrédulo viajante foi reconhecendo-os e perguntou:

— Mas, como aconteceu esta mudança? Vocês viviam com extrema dificuldade e agora mal os reconheço?!

— Moço, respondeu o sitiante, aconteceu uma coisa interessante: naquela época, nós tínhamos uma vaquinha que nos atendia em todas as nossas necessidades; mas, um dia, ela caiu no precipício e morreu. A partir daí, tivemos que buscar alternativas; e deu certo!

Amigos, quantos de nós temos uma vaquinha que supre nossas necessidades e acaba nos deixando acomodados e muitas vezes em extrema miséria? Quantos de nós, além de não conseguirmos nos desfazer desta vaquinha, ainda ficamos reclamando da vida?
Com que situações de nossas vidas, poderemos fazer uma analogia com a história desta vaquinha?

Exemplos de outras vaquinhas que existem:

=> Um setor de vendas mal trabalhado é uma vaquinha terrível.
=> Um comércio estagnado que mal paga as contas é uma vaquinha maldosa.
=> Um emprego sem perspectivas de melhorias, é uma vaquinha cruel, nos acomoda.
=> Um relacionamento, sem ajuda mútua, buscando fazer um ao outro feliz, sem produzir bons frutos, é uma vaquinha intragável.
=> Uma instituição ou empresa que não estimule seus colaboradores, que não os impulsione, que não os ajude a crescer, é uma perigosa vaquinha, que os deixa acomodados e submissos.
=> Um pai e uma mãe que dão tudo a seus filhos, sem que eles tenham que fazer o menor esforço, são as piores vaquinhas.
=> Uma herança é uma vaquinha impiedosa quando não é bem aproveitada e conduz ao ócio e à acomodação.
=> Imóveis de aluguel quando estimulam a preguiça e a acomodação, também são vaquinhas da pior espécie.

Pensemos nestas vaquinhas que estão à nossa volta e que nem sempre nos fazem bem.

Grande abraço a todos.

Luiz Arantes

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